A normalização da dor feminina está adoecendo milhões de mulheres...
Atualizado: 1 de jul.

Eu já vou adiantar pra você, mulher que me lê, que eu tô brava.
Mas se você for uma mulher me lendo em 2026, você provavelmente também está. Então pega um café e vamos discutir nossa saúde física e mental juntas novamente até o mundo melhorar.
Eu tinha 14 anos quando as dores começaram. Desmaios, cólicas eram rotina.
O primeiro ginecologista em que fui, um homem, disse que era normal. Que “todas as mulheres sentem dores e que eu não era especial”. Me receitou anticoncepcional e, de passagem, com um humor digno do Carlos Alberto de Nóbrega, me avisou que o remédio não servia pra “aprontar por aí”, só pra controlar a dor.
Sim, só perdeu pra minha professora de ensino religioso na escola, que disse que o melhor método anticoncepcional era “fechar as pernas”.
Eu imagino que sua cara lendo isso foi igual à minha escrevendo...
Dos 14 aos 19 eu colecionei internações, ia pro hospital tomar remédio na veia porque a dor não passava de outro jeito. E eu achando que era “normal”.
Normal não porque era impossível, outras mulheres que conhecia não passavam por isso, mas que eu devia ficar na minha... porque um médico tinha me dito que eu não era nenhum caso especial.
Aos 19, já não aguentando mais toda essa “normalidade”, e após um caso de dismenorreia membranosa (pesquisem), encontrei, com muita sorte, uma médica que estudava endometriose e que atendia na minha cidade. A Dra. Camila, uma querida.
Ela me explicou que não existiam exames definitivos pra endometriose na época (2014), mas que, com os exames que pediu e pelo meu histórico, a gente podia considerar que eu tinha esse palavrão ai. E não era só a endo: ela identificou também a dismenorreia membranosa como parte do quadro.
(Pra você que ainda não pesquisou ter uma imagem mental: é como tentar passar um ovo por um tubo de caneta Bic. Pesquisem.)
“Não é normal uma mulher sentir tanta dor."
Não deixe ninguém te dizer isso nunca mais”, ela me deu bronca ainda.
Eu lembro que ela me disse isso várias vezes, com um olhar de raiva que, mais velha, fui entender.
E poxa, eu precisei de uma médica me dizer isso em voz alta, aos 19 anos, pra finalmente acreditar.
O remédio que ela prescreveu era caro e difícil de encontrar na época, a consulta cara, os exames caros. Mas consegui me virar.
A internet, naquela época também, tinha quase nada sobre o assunto. Tinha um único estudo, em inglês, que eu li e reli milhares de vezes tentando entender o que tinha de errado comigo. Só um. Pra uma condição que afeta milhões de mulheres.
E eu ainda tinha o privilégio de conseguir ler em outra língua, pagar um exame.
Se pra mim, uma pessoa que teve acessos, privilégios, internet e informação, o processo de diagnóstico já foi um caos, imagina pra quem não teve? Pra quem só tinha o médico do postinho dizendo que sentir dor era normal?
Já naquela época, a Dra. Camila cortou a ideia de eu menstruar como parte do tratamento, e assim foi até recentemente. (Expondo minha saúde íntima pra vocês novamente, já já boto a foto dos ultrassons hahaha.)

Em 2020, a onda da vez era o DIU e a nova médica em que fui me convenceu que seria a oitava maravilha do mundo. E pra deixar registrado aqui já, eu não tenho nada contra ele, inclusive gostei bastante depois que o caos passou.
Foram ótimos 4 anos e 6 meses de paz, depois de quase 6 meses de caos, remédios pra pele, skincare caro, reposições, dor e choro.
Eu sinto que a gente não fala do caos com tanta frequência quanto seria necessário, então vamos falar mais disso?
O DIU é vendido como um procedimento simples de ambulatório.
“Duas pinçadinhas e você vai pra casa.” O que não te contam é que a pinçadinha é com as garras do satanás e que dói... muito.
Que, pra muitas mulheres, é uma das dores mais intensas que já sentiram.
E que por muito tempo a medicina simplesmente não quis saber disso, até as novas diretrizes chegarem pedindo, com todas as letras, que os médicos escutem as mulheres quando elas dizem que... dói.
As novas diretrizes internacionais do ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas) e do CDC orientam os médicos a não subestimarem a dor na inserção do DIU e a oferecerem ativamente métodos de controle, como anestésicos locais (spray, creme ou bloqueio paracervical).
Diretrizes lançadas agora, em 2025 e 2026.

Ano passado meu DIU venceu. Fui retirar e minha outra nova médica me incentivou a não renovar o contrato com meu útero, porque nos próximos anos eu poderia querer engravidar. E até pode ser que eu queira, de fato, então estaria tudo bem SE a solução dela não tivesse sido: volte pro anticoncepcional. Com pausa obrigatória a cada três meses.
Eu relutei, viu? Mas ela garantiu que ficaria tudo bem e que as pausas eram necessárias. Eu, mais uma vez, confiei. Poxa, ela quem sabe mais que eu, né?
Na primeira pausa fui bem. Uma nova mulher...
Dias após a segunda, me encontrava numa farmácia 24h fazendo teste de dengue, tendo o seguinte diálogo:
— "Acho que tô com dengue, moço. Tô muito cansada, com dor no corpo todo, cefaleias, raciocínio lento... só não tive febre."
Voltando com meu teste negativo, ele me olha com cara de dó e pergunta:
— "Minha flor, você tem endometriose?"
Eu tinha, né? Só tinha esquecido. Anos sem nem lembrar que ela estava lá.
— "Isso tá com mais cara de endo do que de dengue — ele disse, rindo."
E era, viu.
Aí eu já fiquei com raiva.
Não ia dar tudo certo e ficar tudo bem? Por que eu tava passando por isso de novo?
Eu sei que tem muitas mulheres que não vão entender isso. Que não sofrem com cólicas ou passam por esses dias muito bem, obrigada. Mas pra nós, meninas que temos endometriose, é diferente.
É como se uma injustiça cósmica estivesse acontecendo.
“Por que eu?” “Por que tanta dor?” “Por que isso acontece?”
Por que eu preciso continuar sendo um ser funcional nesses dias se meu corpo não está funcional e minha cabeça muito menos?
Tudo que eu tinha enterrado aos 19 anos voltou.
Eu nem lembrava mais como usar um absorvente.
E, meu Deus, lembrei na prática como é insuportável uma mulher com endometriose menstruar.
Depois dos flashbacks de guerra passando na minha cabeça, eu tomei a decisão que toda mulher que sofre disso já tomou alguma vez na vida... vou emendar.
Emendei as cartelas sem pausa pra não passar mais por isso. Não podia ter meu corpo destruído a cada três meses dessa forma. As dores, as inflamações, as náuseas, não conseguir pegar um peso de 2kg na academia...
E aí veio o problema que se escondia atrás da porta número três.
Nos últimos meses, minhas enxaquecas tinham piorado muito. Enxaqueca com aura, na verdade. Tantos dias de crise que eu já estava me preparando mentalmente pra um AVC, sem saber que estava realmente no caminho certo pra um.
O anticoncepcional que eu tomava é contraindicado pra pessoas com enxaqueca.
Porque aumenta o risco de AVC. Eu estava tomando um remédio que aumentava o risco de morrer. Que estava me dando dores de cabeça horrorosas por causa de um bebê que talvez eu pudesse querer ou não ter nos próximos dois ou três anos.
Pessoalmente, ir ao médico hoje, sendo mulher, virou uma eterna sensação de “eu realmente consigo confiar que essa é a melhor decisão pra mim?” “Será que eu realmente preciso dessa cirurgia ou é só mais fácil pro médico?”
Porque minha médica não perguntou se eu tinha enxaqueca? Em vez disso, perguntou se eu já tinha pensado em congelar óvulos?
Difícil, né?
Mas enfim, cada médico tem um método diferente, um remédio novo, uma abordagem melhor que a anterior. E a sensação é que a gente vai testando, testando, testando... como se fôssemos ratos de laboratório.
Troquei pra um remédio menos perigoso pra mim. Não posso ficar sem nada por causa da endometriose e também não quero colocar o DIU de novo, porque dói pra um $@$#!@ e minha pele ficou horrível.
Então aqui estou eu, um porquinho-da-índia tentando entender por que tudo relacionado ao corpo feminino é tão difícil de ter um martelo batido. E eu tive pelo menos 5 ou 6 conversas com mulheres diferentes esse ano se questionando exatamente a mesma coisa.
Por que pra tirar uma pinta ou fazer uma tatuagem num homem eles oferecem anestesia, e pra mulheres fazerem procedimentos ginecológicos é “só duas pinçadinhas” e vai pra casa com ibuprofeno?
Por que os remédios que são "nossa responsabilidade" tomar pra não engravidar têm tantos efeitos colaterais e, quando estudaram anticoncepcionais masculinos, os efeitos considerados toleráveis em mulheres viraram motivo pra interromper os estudos?
Por que só recentemente começaram a testar absorventes usando sangue menstrual mais próximo da realidade, sendo que mulheres passaram anos perguntando umas pras outras: “amiga, vou andar na frente... olha se vazou?”
Por que cientistas da NASA, alguns dos homens mais inteligentes do planeta, perguntaram se 100 absorventes seriam suficientes pra uma mulher passar 7 dias no espaço?.
São tantas questões sobre o corpo feminino que simplesmente nunca foram levadas a sério.
Que tipo de insensibilidade é essa?
E, mais importante: até quando a gente vai aceitar ser tratada assim?
A Disá existe porque eu cansei de aceitar. Porque aprendi, da forma mais difícil, que ninguém vai defender o seu corpo se você não defender primeiro.
E defender começa por saber. Por nomear.
Por não deixar ninguém te dizer que é normal sentir tanta dor.
Não é normal.
Nunca foi. NUNCA SERÁ.
Faz sentido pra você?
Me conta sua história, vamos fazer desse espaço um lugar de troca e conhecimento.
Observação: o post já está longuíssimo, então vou deixar abaixo algumas notícias e links pra vocês verem as informações que citei no texto e rirem enquanto choramos de desespero juntas:
Pela 1ª vez, estudo testa com sangue absorventes menstruais e descobre capacidade menor de absorção
Por que os testes do anticoncepcional masculino foram suspensos
Open-access Dismenorreia membranosa: uma doença esquecida (o unico estudo da época)
Dismenorreia Membranosa: o que é, o que causa e como tratar
A dor das mulheres é levada menos a sério em consultas médicas | Reparação Histérica #46
Endometriose nunca foi somente uma doença ginecológica: https://www.instagram.com/p/DaOd0ghj09J/?img_index=2&igsh=bnB3bDF6cmxhYjVo


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