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O lugar que você vive também te vive.

  • Foto do escritor: Fernanda Costa
    Fernanda Costa
  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

Não é só você que escolhe os lugares que frequenta.

Os lugares também moldam quem você vai ser ali dentro.



SOBRE AMBIENTE, GENTE E QUEM A GENTE VIRA


Ultimamente tenho conversado bastante com meu esposo sobre isso: como passamos por fases diferentes com amigos e trabalhos, e como, dependendo do momento e do lugar, acabávamos focando mais em algumas coisas e menos em outras.


Alguns ambientes reforçavam nosso lado mais carinhoso; outros acabavam trazendo à tona versões de nós mesmos de que a gente não gostava.


Passamos por ambientes e grupos em que reclamar e falar mal dos outros era normal, e acabávamos entrando nisso também. Em outros lugares, onde as pessoas se respeitavam e se ajudavam, aprendemos a fazer o mesmo.


Nós — todos nós, eu e você que está lendo isso — somos animais sociais. Sobrevivemos até aqui através do coletivo, aprendemos por imitação e também evoluímos assim.


Para nós, é importante estar em sociedade, ter amigos, conversas, compartilhar felicidades e dores com os demais humanos que aqui habitam. Mas, às vezes, nessa ideia de buscar pertencimento, um grupo, a gente se perde um pouco na dose saudável de estar ali.



AS PERGUNTAS QUE A GENTE EVITA


Eu tenho essa crença que pode parecer boba pra você, mas de que a gente já nasce com a resposta pronta, e na vida, o que temos que fazer são as perguntas que vão nos levar até ela.

Eu realmente gosto disso? Eu realmente quero isso pra minha vida? Eu gosto de morar aqui? Eu sou feliz nesse trabalho? Nesse casamento? Eu deveria estar em outro lugar? Eu quero mesmo ter filhos?


Fazendo as perguntas certas, por mais assustadoras e doloridas que sejam, a gente começa a enxergar a verdade por trás dos contratos sociais e “desejos” da nossa cabeça.



QUANDO O CORPO CONTA A HISTÓRIA


Eu trabalhava em uma empresa que tinha sede em uma capital. Meu time quase todo era de lá ou de Minas. Virava e mexia eu precisava ir para lá a trabalho, e eu quase nunca reparava no meu estado tenso e caótico quando andava por lá.  Eu vivia os dias como eu deveria viver.


Só quando eu voltava para casa eu percebia como meu corpo estava tenso, como minha cabeça estava a milhão e, geralmente, quando eu chegava aqui e toda essa tensão relaxava... eu ficava doente.


Minha situação respiratória também piorava muito quando eu ia para lá. Ela já não é das melhores nem aqui, haha, mas lá eu sofria um pouco mais.


Visitei Nova York duas vezes também. Em uma delas, fiquei em Manhattan por 7 dias, no mesmo estado caótico de mente. Na outra vez, passei 25 dias em New Jersey, sentindo a completa paz que era aquele lugar maravilhoso.


Lembro de chegar de viagem nessa mesma capital e começar a chorar no ônibus por ver uma cidade tão feia depois de tanta beleza, haha. Deve ser culpa do meu signo.


E hoje, olhando para trás, isso nem parece tão estranho assim.



NÃO É SÓ VOCÊ — É O AMBIENTE


A gente normaliza muita coisa que não é neutra.

Existem dados mostrando que morar em cidades grandes aumenta significativamente o risco de ansiedade e transtornos de humor, mesmo quando você controla renda, escolaridade e histórico de vida.


Tempo de deslocamento não é só cansaço. Trajetos longos estão diretamente associados à piora da saúde mental. Barulho constante não some porque você “se acostumou”. Ele continua afetando o corpo mesmo quando você acha que não.


Falta de área verde, excesso de estímulo, pouca separação entre descanso e trabalho… tudo isso vai acumulando. E o mais louco é que a gente continua tentando se adaptar como se fosse só uma questão de esforço. E não é.



O QUE EU SENTI NA PRÁTICA


Tem algum tempo me mudei pra uma rua movimentada da minha cidade aqui no interior do Paraná, um pedaço da cidade onde quase tudo acontece: carros, motos, acidentes, trânsito, protestos, comemorações, intervenções. Tem até um pequeno estádio aqui do lado que, quando tem evento, fica um barulho audível.


Às 18 horas, na nossa casa, parece que estamos no meio do trânsito, buzinando para um infeliz que não dá seta... justamente na hora em que supostamente deveríamos começar a descansar.


E, desde que a Disá não coube mais em casa e eu mudei o ateliê para uma casa mais afastada, comecei a trabalhar no silêncio e nos sons da natureza, em um lugar com plantas, sol e vento. Fui sentindo que, ali, eu descansava, mesmo estando trabalhando.


Foi conversando com meu marido que fui entendendo tudo isso que estou contando para vocês, sobre como nosso corpo e nossa mente se sentem nesses lugares diferentes.

Foi por essas e outras que decidimos que, este ano, precisamos nos mudar para uma casa mais afastada, inclusive.



COMO PERCEBER ISSO EM VOCÊ


Acho que, no fundo, a gente sabe o que acalma nosso sistema nervoso, o que faz bem para a nossa saúde mental. Por muitos anos eu me obrigava a querer entrar em uma cidade grande para ganhar a vida. Hoje, para mim, isso é uma ideia torturante.


Não estou aqui dizendo que isso nunca vai acontecer, porque a vida acontece, e nossas empresas podem pedir isso da gente em algum momento.


O que estou tentando dizer aqui é: e se a gente começasse a reparar de verdade, não só com a razão, no que o nosso corpo pede? Que respostas você encontraria?


Onde ele quer estar?

Quais ambientes deixam a gente mais leve?

Quais pesam demais?

Onde eu me sinto mais feliz?

Mais calma?

Mais livre?


Tem um exercício que eu gosto muito, que é olhar fotos antigas.

Olhar pra onde eu estava, com quem eu estava e, principalmente, como eu estava.


Em quais fotos eu estou sorrindo de verdade, com o corpo leve e o semblante tranquilo?

E em quais eu pareço mais tensa, desconfortável, meio fora de mim?

Porque, às vezes, a gente não percebe na hora, mas o corpo aparece depois.


E, sinceramente, acho um jeito muito honesto de entender quais lugares, pessoas e fases estavam me fazendo bem... e quais estavam me afastando de mim sem eu nem perceber.



NEM TODO MUNDO PODE ESCOLHER

MAS TODO MUNDO PODE PERCEBER


Óbvio que estou aqui fazendo um recorte de uma realidade que não é a de muita gente.


Algumas pessoas não têm o privilégio de escolher onde vão morar ou onde vão trabalhar, quantas horas de transporte público vão ter que pegar só para começar o dia.


Mas, às vezes, não é sobre um grande passo ou uma mudança radical logo de começo. Com pouco, a gente já pode começar a notar quais são esses lugares, fazer esse reconhecimento do território.


Em quanto tempo eu conseguiria sair dessa amizade tóxica?

Desse relacionamento que me traz ansiedade?

Desse ambiente que me traz coisas ruins?

Dessa cidade / rua que me deixa tensa?



O DIA QUE EU ENTENDI



Durante minha temporada nessa empresa, me ofereceram duas vezes uma promoção mediante a mudança para essa capital.


A primeira eu recusei com a desculpa de que o salário não estava bom para o custo de vida de lá.


Na segunda, quando dobraram o salário e ofereceram pagar meu aluguel, tive que encarar que eu simplesmente não gostava de quem eu era lá.



Eu só não queria pagar o preço de ser quem eu achava que precisava ser.

Muita terapia para isso, mas finalmente entendi.


Acho que muito do que veio depois, e que já falei alguns posts atrás, veio por conta disso. Quebrei meu personagem, e o que ficou foi o caos.


Na época da minha demissão, alguns colegas chamaram de coragem, outros de medo. Alguns disseram: “Queria eu fazer isso”, “Meu sonho era voltar pra minha cidade”.


Gente que está lá até hoje, na verdade.

Dureza, né.



QUANDO VOCÊ SE AFASTA DE VOCÊ


Tava aconselhando uma amiga minha esses dias, dizendo que, quando você se afasta desse lugar que te faz bem, e “lugar”, aqui, não é necessariamente geográfico, mas emocional, você vai se perdendo de você.


Por exemplo, ela é uma pessoa muito artística. Tem essa veia de criar, de fazer arte, de se expressar. Mas começou a trabalhar com algo muito comercial, algo que não permite que ela coloque isso para fora. Ela chega cansada, sem energia, e não consegue acessar esse lado dela.


E, aos poucos, foi se afastando de quem é.


Quanto mais você se afasta desse lugar onde você cria, descansa, onde seu corpo gosta de estar, mais adoecida você fica. E aí a gente anestesia, né.


Compra por impulso, cria vícios “saudáveis” ou não, se distrai de tudo quanto é jeito para não encarar.


Mas é aquele ditado, né amiga: não dá para a gente se trair tanto assim e achar que não vai ter consequência.



OS LUTOS DAS VIDAS QUE NÃO VIVEMOS


Mas tá... e aí? Como você lida com o luto das vidas que não pôde viver? Da vida que não escolheu? Do lugar onde decidiu não ficar?


Tem uma ideia da Sylvia Plath que sempre me pega.

Ela fala sobre como não dá para ser todas as pessoas que a gente quer ser, nem viver todas as vidas possíveis. Não dá para desenvolver todas as habilidades, nem experimentar todas as versões da gente que poderiam existir.


E, mesmo assim, a gente quer.

A gente quer viver tudo. Sentir tudo.

Experimentar todas as nuances, todos os caminhos, todas as possibilidades de quem poderíamos ser.


Mas a vida não funciona assim.

A gente escolhe, ou é levada a escolher, um caminho.

E, junto com cada escolha, vem uma coleção inteira de ausências.


E se eu tivesse feito outra faculdade? E se meus pais tivessem me incentivado mais? E se eu tivesse me dedicado a outros interesses? E se eu tivesse mudado de país? E se eu tivesse dinheiro para fazer diferente? E se eu não tivesse entrado nessa relação? E se eu não tivesse me divorciado?


Isso não é só dúvida.

Isso é luto.

E, quando a gente não elabora isso, a gente fica presa.

Presa no que não foi.

E desconectada do que é.



ESSA FESTA AQUI É MESMO MINHA?


O luto não é só pelo que a gente não viveu.


É também pelo tempo que passou tentando sustentar uma vida que não era sua.

Do quanto a gente se esforça para fazer uma escolha dar certo, sem nem se perguntar se quer tanto assim que ela dê.


Porque, às vezes, o que a gente chama de “dar certo” é só conseguir permanecer em um lugar que, no fundo, não combina com a gente.


Como ser convidada para uma festa em que você queria muito estar... mas não desse jeito. Você até entra. Mas não relaxa. Não se reconhece. Não consegue ficar por muito tempo.


E aí vem aquela pergunta que incomoda:

Vale a pena me encaixar, se para isso eu preciso desaparecer um pouco? Se eu preciso matar partes importantes de mim para entrar?


Não se esqueça de que essa vida é sua. E que você precisa procurar as perguntas que vão te levar até ela. E, se estiver muito difícil saber o que quer, comece se perguntando o que você não quer.


Porque, se você precisa se espremer demais para permanecer, talvez não seja sobre se esforçar mais.

Talvez seja sobre reconhecer que aquele lugar pede uma versão sua que não vale o preço.

E escolher sair também é uma forma de se escolher.



VOLTAR PRA MIM


Talvez, no fim, não seja sobre encontrar o lugar perfeito.

A cidade ideal, a casa mais bonita, o emprego mais impressionante.

É mais sobre parar de insistir nos lugares, físicos ou emocionais, que claramente não são casa.

E começar, aos poucos, a voltar pra onde é.


Voltar para os lugares que te regulam.

Para as pessoas que te deixam em paz.

Para as coisas que você gosta de fazer quando ninguém está olhando.


Não precisa mudar tudo de uma vez. Mas dá para ir se aproximando.

Um pouco mais de você aqui, um pouco menos de esforço ali.


Até que, sem perceber, você para de sobreviver em certos lugares e começa a viver melhor em outros.


E você?

Em quais lugares você tem se encontrado? E em quais tem se perdido?

O que o seu corpo já entendeu, mas você ainda está tentando ignorar?


Vamos conversar.

Quero te ouvir.

 
 
 

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