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A sua versão que tá te julgando nem aguentou chegar viva até aqui. Por que você ainda tá ouvindo ela?

  • Foto do escritor: Fernanda Costa
    Fernanda Costa
  • 4 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 31 de mar.


Chamando todas as meninas cansadas, burnoutadas, ex-crianças prodígio que tinham um futuro brilhante pela frente, a carreira desenhada, os planos organizados e que hoje não estão exatamente onde imaginaram que estariam. Essa é uma carta de amor pra nossa ansiedade e expectativas frustradas.


Eu era uma criança esquisita. Assistia Pequenas Empresas, Grandes Negócios na TV aberta, um dos meus programas preferidos era o Telecurso 2000 e eu amava ver Globo Rural.


Aprendi a ler o básico, escrever e fazer contas de mais e menos antes de me matricularem no prézinho, como quem limpa a casa antes da diarista chegar, vai que ela acha sujo, né?


Aos 8 eu jogava xadrez com meu pai e tios.

Com 13 já organizava a fila na escola pra ganhar dos meninos.


Lá pelos 15 tinha lido a Bíblia inteira e o Manifesto Comunista também. Discutia Dostoiévski, Kafka e citava Baudelaire por aí.


Aos 18 competia pau a pau com Bukowski no Tumblr pra ver quem tava pior da cabeça. Isso tudo depois de construir meu theme em HTML do zero, claro.


Lembrar dessa minha versão, é como pensar numa pessoa que conheci anos atrás e mal me recordo. Uma memória distante essa — vamos chamar aqui de garotinha — que tinha tudo organizado e resolvido, sabia tudo, não precisava de ninguém.

Deixa comigo, eu resolvo, eu vou, eu faço, eu sou.


A garotinha tinha um plano definido. Ela ia estudar horrores, se formar na melhor universidade, conseguir o melhor emprego, ter o melhor salário, o melhor cargo. Ia ser tão importante, tão necessária. O mundo corporativo não seria ninguém sem ela.

Por um tempo tudo funcionou bem. Tinha o emprego, o salário, a equipe que dependia dela. Tinha até um relacionamento que vamos chamar aqui de funcional. Carro, apartamento, cursos, certificados, diplomas, viagens, línguas. Uma vida perfeitamente adaptada ao mundo moderno.


Até que um dia, subitamente, ela morreu.


Foi de burnout, disseram.

— Tão nova…Tão cheia de planos. Uma vida inteira pela frente.

— Parece que foi acidente, menina.

— Cansada, dormiu ao volante. Um cavalo solto na estrada, já viu...

— Dizem que tá uma epidemia de cavalos soltos por aí agora né…


A garotinha agora não existia mais.

Mas seu fantasma, montado no cavalo atropelado — chamado Ansiedade — insistia em assombrar a antiga casa.


Casa que agora vivia com aquele barulho chato de vento assobiando pelas salas vazias.

E cascos batendo pelo assoalho de madeira.

Pocotó... pocot... poco... poc... Pode ser que você não consiga se aposentar em... Cavalo idiota.


Ontem eu tava chorando as pitangas pro meu marido. Eu não, a garotinha estava.


Dizia que eu deveria estar melhor. Mais rica. Mais avançada.

Que minha empresa já devia ter isso e aquilo.

Que antes do acidente ela era capaz de dominar o mundo. Trabalhar horas sem cansar. Dar conta de tudo. Ler, estudar, aplicar. Incansavelmente.


Do nada aquela vozinha que mora na minha cabeça — junto com o cavalo irritante — tomou conta da minha boca e começou a falar todo tipo de atrocidade sobre mim.


Acho que foi isso que o Diego viu quando decidiu dar uma rasteira nela. Uma queda que com certeza vai doer por bons meses, ou até pra sempre.


Enquanto aquela menina malvada dizia como eu deveria ser tão melhor do que sou, e seu cavalo ridículo me pisoteava no chão, meu marido, num lance de agilidade com sorte, foi mais rápido.


Vida, essa versão sua não aguentou nem existir. Ela morreu. Por que você ainda está ouvindo o que ela acha?


A garotinha se calou imediatamente. Fiquei com aquele nó na garganta, segurando o choro no meio do café da tarde. Ele não estava brigando comigo. Estava brigando com esse pequeno poltergeist insensível sabe-tudo que mora na minha cabeça e insiste em me ferir com seus achismos.


Quando ele disse aquilo, fui voltando pra mim. Como se a nuvem densa de ansiedade que eu mesma criei começasse a se dissipar e eu conseguisse enxergar de novo.


Obviamente toda essa história, a racionalização e a explicação, só vieram depois.

Na hora eu só senti o baque da frase.


Essa que me julga tanto nem aguentou viver. Ela sucumbiu. Burnoutou. Morreu.

E agora fica lá do além, tentando dirigir a minha vida e dando palpite?

Pensei. Racionalizei. Viajei. Voltei. Chorei. Pensei de novo.


E sabe qual foi a pior parte de racionalizar tudo isso?


Por mais que eu não goste da dupla infernal, e por mais que eles me atormentem, eu não posso simplesmente me livrar deles. Eles não vão a lugar nenhum.


Ela é parte de mim.

A parte ambiciosa.

A que quer mais.

A que enxerga potencial onde eu às vezes só vejo cansaço.

A que sempre quer mais e melhor.

Entendi que, em vez de me irritar, talvez eu precise cuidar dela. E dar água pro maldito do cavalo também — que, por mais estabanado e escandaloso que seja, me leva a lugares.



Eu preciso que ela faça parte da minha vida.

Não para endeusar e deixar a maluca dirigir tudo como era antes, mas para curar uma parte de mim que precisa de cuidado e atenção. Talvez, no fundo, a gente possa ser amigas. Talvez ela aprenda a pegar mais leve comigo.

E talvez eu consiga detestar cada

aparição dela um pouco menos.



Depois do burnout, eu achei que tinha perdido ela pra sempre. Agora eu entendi que ela só está confusa e machucada, mas está ali, associada à minha ansiedade, aos berros, tentando ganhar no grito um pouco de atenção.


Eu te vejo, garotinha. Eu te amo, inclusive.


Você nos dirigiu até aqui, talvez inconsequentemente demais até.

Mas você fez o que pôde e o que foi preciso pra sobreviver.

Agora deixa que os adultos cuidem de você. E do seu cavalo desagradável.

Você não vai ter mais o controle da direção, mas pode ir de carona comigo rumo ao novo eu que ando construindo.


Acho que a lição aqui é que merdas acontecem, mesmo quando o plano é bom.

Se você está lendo até aqui, provavelmente sabe muito bem do que eu estou falando.


E que, quando a gente tenta mudar um padrão, o que vem primeiro é a culpa.

Culpa por não ser mais como antes.

Culpa por decepcionar expectativas.

Culpa por dizer “não” onde você sempre disse “sim”.

Mesmo sabendo que aquele padrão te machucava.


É estranho: você finalmente se protege… e o que sente é remorso.


Mas isso não é um sinal de que você está errando.

É só o sistema antigo tentando sobreviver.

Nosso inconsciente costuma reagir com angústia e medo diante de qualquer mudança de rota.


E, se eu puder te dar um conselho pra vida, aceite o desconforto e não ceda ao padrão antigo.


Ele não aguentou viver por um motivo, não se sustentou e não precisa mais dar opinião na sua vida.


E, se puder, esteja com alguém que te defenda de você mesma.

Às vezes, isso vai ser necessário.


É isso, meninas.


Essa foi minha sessão de terapia de hoje.

Aqui estou eu expondo minha saúde mental pra estranhos na internet novamente.


Vamos conversar.

Quero ouvir de vocês: como foi, como está sendo pra vocês a vida adulta?


Era tudo o que você esperava quando era criança?


Beijos e até a próxima.



EDIT: Apenas ouçam esse episódio da Luanda Vieira para o Bom Dia, Obvious.




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