A estética da vida resolvida e o cansaço de se comparar o tempo todo.
- Fernanda Costa
- há 22 horas
- 3 min de leitura

Ninguém fala muito sobre isso, mas quase todo mundo faz.
Se comparar acontece no intervalo entre uma coisa e outra.
Enquanto o dedo desliza pela tela, enquanto se espera alguma resposta, enquanto se observa a vida acontecendo do lado de fora.
Ela parece lidar melhor com isso.
Ele parece mais organizado.
Ela parece mais tranquila.
E a própria vida, que até então estava seguindo normalmente, ganha um leve desconforto.
As redes sociais deixaram isso inevitável. Cria-se uma sensação constante de estar ligeiramente fora de compasso, mesmo quando nada está objetivamente errado. Como se todo mundo tivesse recebido um cronograma e você tivesse perdido o e-mail.
Talvez por isso uma série que terminei de ver esses dias, chamada Too Much, funcione bem como paralelo.
A história começa com alguém tentando seguir em frente do jeito que dá: Jessica está esgotada, vê o ex pedindo a influenciadora por quem foi trocada em casamento, bebe, invade o apartamento deles e faz aquela cena que, no dia seguinte, a gente preferia não lembrar. Ela se atrapalha no trabalho, aceita um emprego em Londres como quem tenta apertar “reiniciar” e muda de país com a cachorra, prometendo recomeçar.
Só que o recomeço vem com bagagem. Mesmo longe, ela continua olhando demais pra vida do ex e da Wendy. Grava vídeos furiosos que não eram pra ninguém ver, se desorganiza, se machuca num acidente bobo, e aquilo vira mais um lembrete de como a gente pode ficar meio ridículo quando está ferido. Não chega a ser uma grande tragédia. Também não é bonito. É só humano.
Essa obsessão em ver a vida alheia como se nela estivesse escondida alguma resposta aparece na série e aparece na vida. É estranha, claro. Mas familiar. Porque, guardadas as proporções (e os limites legais), muita gente faz uma versão mais contida disso todos os dias.
Observa demais.
Atualiza demais.
Compara demais.
Não porque quer voltar, competir ou atrapalhar. Mas porque precisa se situar. Saber se já superou. Saber se está indo bem. Saber se ficou pra trás.
Vamos combinar? Ninguém tem a vida ganha.
Esses dias vi um vídeo de uma famosa dizendo que, como não ganhou na Mega da Virada, tinha voltado a postar a série no canal. Pensei: se pra ela está assim, imagina pra gente.
A verdade é que não importa muito onde você esteja. Sempre vai existir a sensação de que deveria estar melhor. Alguém compra o carro que você sonha há anos e, automaticamente, parece que aquela pessoa tem a vida resolvida. Sendo que, no máximo, a gente conhece um terço da história. E olhe lá.
A comparação acontece assim: um sucesso aqui, uma fração da verdade ali, um stories editado, filtrado, musicado acolá. A gente junta esses pedaços, preenche o que não vê e monta uma história que parece fazer sentido. E aí usa isso como parâmetro. Como se a vida do outro tivesse roteiro, começo, meio e final. Quando, na prática, aquele velho meme continua valendo: a gente realmente não sabe o que está acontecendo dentro da casa do outro.
Quando a vida era mais simples e a gente não conhecia nenhum super nômade que viaja o mundo só com coragem e “propósito”, como se isso não exigisse dinheiro, a ansiedade parecia menor.
Hoje, a vitrine das vidas perfeitas está aberta vinte e quatro horas por dia. Com atualização automática.
Fica difícil se contentar com um emprego CLT.
Fica difícil aceitar que talvez você esteja bem sozinha.
Fica quase insuportável olhar no espelho e não ver um corpo definido.
Tudo vira parâmetro. E o problema do parâmetro é que ele raramente é justo.
Ele não considera o cansaço acumulado, o dia ruim, a conta que vence amanhã, a insegurança que não aparece na foto. Não considera o contexto, nem o preço invisível que cada escolha cobra.
A gente compara o nosso bastidor com o palco do outro. A nossa terça-feira comum com o melhor ângulo da semana alheia. E perde, quase sempre.
Perde a capacidade de reconhecer o que já construiu. Perde a calma. Perde o agora.
Talvez a pergunta não seja como parar de se comparar, e sim, quem decidiu o ritmo que a gente tenta acompanhar? Quem virou dono do tempo da cura, do amadurecimento, do “seguir em frente”. Quem determinou o ano certo para se formar, comprar uma casa, casar, se sentir inteiro?
No fim das contas, quase ninguém está adiantado. Ninguém está tão atrasado assim. O que existe é gente em momentos diferentes, lidando com coisas diferentes, improvisando mais do que planeja. Tem quem esteja começando algo novo, quem esteja insistindo no que já conhece, quem esteja só tentando organizar a semana. A vida não segue cronograma e, na maior parte do tempo, a gente só vai ajustando o passo e seguindo.
E isso, por mais simples que pareça, já é bastante coisa.







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