A volta da magreza extrema — agora disfarçada de “saúde”


Você já reparou como a internet parece estar ficando estranhamente magra de novo?
E não de um jeito explícito como nos anos 2000, quando revistas ensinavam a dieta da sopa, blogueiras postavam “thinspo” no Tumblr e celebridades desmaiavam de fome em tapetes vermelhos. Agora, a coisa vem maquiada de autocuidado, rotina saudável, disciplina, pilates, corrida às 5h da manhã e “longevidade”.
O resultado visual, porém, continua sendo muito parecido.
A cultura da magreza extrema voltou. Só mudou de roupa.
O novo corpo ideal
Tem alguma coisa acontecendo em Hollywood e nas redes sociais que ficou difícil de ignorar. Nos últimos meses, uma sequência de eventos, premiações e festivais trouxe de volta um padrão corporal muito específico: corpos extremamente magros, com pouca gordura corporal, rosto cavado, clavícula marcada, braços finos e aquela aparência quase frágil que a moda sempre romantizou.
O Festival de Cannes deixou isso muito evidente.
A internet comentou o corpo de Demi Moore como se aquilo fosse apenas um “tônus muscular impressionante”, quando parte daquela definição vinha justamente da pouca gordura sob a pele. A situação ficou ainda mais simbólica porque ela é protagonista de A Substância, filme que fala sobre o horror de envelhecer sendo mulher em uma indústria obcecada por juventude e perfeição estética.
E não foi só ela.
A modelo Izabel Goulart apareceu tão diferente que muita gente mal reconheceu seu rosto. O rosto instagramável definitivo parece ter virado um molde industrial: bochecha funda, mandíbula extremamente marcada, nariz mínimo, pouca gordura facial e traços tão padronizados que, às vezes, parece que todo mundo foi montado no mesmo consultório.
A distorção coletiva
O mais assustador talvez seja perceber como nossa percepção de normalidade foi sendo alterada aos poucos.
A atriz Bruna Marquezine virou tema constante de debate por aparecer muito mais magra recentemente. E existe uma camada curiosa nisso tudo: o Brasil sempre vendeu uma imagem de sensualidade ligada às curvas, ao corpo “natural”, à praia, à bunda e ao quadril. Ao mesmo tempo, consome desesperadamente os padrões da alta moda e de Hollywood, que historicamente flertam com a magreza extrema.
Para muitas mulheres, principalmente as que entram nesse mercado internacional, parece existir uma pressão silenciosa para diminuir. Diminuir o corpo, o rosto, a presença física.
Enquanto isso, a internet discute se uma atriz de 19 anos que fez off campus, considerada completamente comum na vida real, é “gorda”.
Isso deveria assustar mais gente.
O body positive que nunca se sustentou
Durante alguns anos, parecia que as coisas estavam mudando.
Campanhas com corpos diversos, discursos de aceitação, autoestima, body positive.
Mas bastou o mercado decidir que a tendência agora era outra para tudo mudar de novo.
Porque, no fim, boa parte desse discurso nunca saiu totalmente da publicidade. Nas passarelas, nos filmes, nas capas de revista e nos algoritmos, o corpo valorizado continuou sendo o mesmo: magro.
E agora ele voltou com uma nova exigência.
Não basta ser magra. Você precisa parecer disciplinada.
A estética da produtividade
O novo ideal feminino não vende apenas beleza.
Vende performance.
A mulher ideal agora acorda cedo, toma suplemento, corre, faz pilates, trabalha, medita, lê, otimiza a rotina, bebe água com limão e transforma o próprio corpo em um projeto eterno de produtividade.
E isso cria uma armadilha psicológica muito perigosa.
A magreza deixa de parecer uma pressão estética e começa a parecer uma consequência moral. Se você se esforçar o suficiente, chega lá também.
Só que quase nunca contam a parte dos privilégios, do tempo livre, dos procedimentos, das canetas emagrecedoras, dos anabolizantes, das restrições alimentares absurdas e da equipe inteira por trás desses corpos.
A gente vê o resultado. Raramente vê o processo.
O corpo feminino como projeto infinito
Acho que uma das coisas mais cansativas de ser mulher é perceber que o corpo nunca pode simplesmente existir.
Ele sempre precisa estar melhorando, reduzindo, corrigindo, tonificando, rejuvenescendo ou performando alguma versão mais aceitável de si mesmo.
E isso vai adoecendo a cabeça de um jeito silencioso.
Porque, mesmo quando você acha que não está ligando para isso, continua sendo exposta o tempo inteiro.
O algoritmo mostra.O Pinterest mostra.O TikTok mostra.O tapete vermelho mostra.
Aos poucos, você começa a olhar para o próprio corpo como um problema a ser resolvido.
Antes de se culpar…
Vale parar e fazer uma pergunta muito honesta:
Esse desejo realmente veio de mim?
Ou eu fui ensinada, aos poucos, a desejar um corpo que movimenta bilhões justamente porque me mantém insegura?
Existe uma diferença enorme entre querer cuidar da saúde e viver aprisionada tentando desaparecer dentro do próprio corpo.
E talvez seja importante lembrar disso antes de transformar cada refeição, cada treino e cada reflexo no espelho em mais uma cobrança.


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