Fiz 32 anos, minha avó morreu e o Brasil está me enlouquecendo.


Minha avó morreu, eu fiz 32 anos e o Brasil está me enlouquecendo.
Eu não sei muito bem como essas três coisas se misturam dentro de mim, mas, de alguma forma, parece que estão todas relacionadas.
A morte de alguém que a gente ama muda a maneira como olhamos para o tempo. De repente, fazer aniversário ganha um peso diferente. Você pensa na idade que tem, na idade que ela tinha, em tudo o que aconteceu entre uma coisa e outra.
Pensa no que ainda queria viver, no que não vai mais poder compartilhar com aquela pessoa e em como é estranho continuar envelhecendo enquanto alguém deixa de existir no mundo da maneira como você conhecia.
E o mundo continua...
Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de entender quando alguém morre. O supermercado abre, as pessoas reclamam do trânsito, chegam mensagens no celular, alguém faz uma piada, outra pessoa está preocupada com alguma coisa completamente banal. A vida segue acontecendo com uma naturalidade quase ofensiva.
E você está ali, tentando entender como tanta coisa pode continuar funcionando quando alguma coisa dentro de você mudou de lugar.
Ao mesmo tempo, fazer 32 anos me trouxe aquela sensação de que já vivi bastante coisa para saber que a vida não acontece como a gente imaginava quando era mais nova. Algumas coisas deram certo, outras não chegaram nem perto do que eu sonhava. Mudei de ideia sobre um monte de coisas, descobri limites que achava que não tinha e passei a entender que o tempo não é uma promessa de que tudo vai se resolver.
E aí tem o Brasil....
Tem sido difícil acompanhar o que acontece por aqui sem sentir que alguma coisa está muito errada. A quantidade de absurdo que a gente precisa processar diariamente, a violência, as notícias, as discussões, a sensação de que precisamos desenvolver uma nova capacidade de indignação a cada semana. Parece que não basta viver a própria vida. Precisamos também encontrar uma maneira de continuar funcionando em meio a tudo isso.
E eu estou cansada.
Cansada de tentar entender tudo, de acompanhar tudo, de sentir que preciso ter uma opinião sobre tudo, de assistir a coisas que me deixam triste, com raiva ou completamente impotente. Cansada de perceber que existe sofrimento demais acontecendo ao mesmo tempo e que a nossa capacidade de absorver tudo isso continua sendo a de um ser humano com um corpo, uma casa, contas para pagar e uma vida que também precisa de atenção.
Talvez perder minha avó tenha deixado tudo isso mais evidente. Quando alguém morre, a gente se lembra, mesmo sem querer, de que existe uma vida acontecendo aqui, agora, e que ela não vai durar para sempre. De que as pessoas que amamos não estarão disponíveis indefinidamente. De que a gente também não.
Tenho pensado muito nisso aos 32 anos.
Em como quero gastar o tempo que tenho. Em quem quero ter por perto. No que vale a pena acompanhar, no que preciso deixar de consumir, nas coisas que me fazem bem e nas que me deixam em estado de alerta mesmo quando estou sentada no sofá da minha própria casa.
Não tenho uma grande conclusão sobre nada disso. Também não estou escrevendo porque descobri uma maneira de lidar com o luto, com a passagem do tempo ou com a sensação de estar vivendo em um país que me deixa exausta.
Estou escrevendo porque minha avó morreu, eu fiz 32 anos e o Brasil está me enlouquecendo.
E, por enquanto, essas são as coisas que eu sei...
Até a próxima, amigos leitores desse blog inconstante. <3



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