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Minha lagosta Edileuza e a ideia de que crescer às vezes parece morrer.

  • Foto do escritor: Fernanda Costa
    Fernanda Costa
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Dona Edileuza é uma lagosta filtradora.

Na verdade, ela é um camarão, erroneamente chamado de lagosta por aí.


Quando chegou aqui em casa, era apenas uma menina tímida, com poucos centímetros. Nos primeiros meses, animou de crescer.


Como o aquário era grande e tinha muitos inquilinos, a gente não se envolveu tanto no processo. Ela simplesmente sumiu por um tempo e, quando eu já não aguentava mais de curiosidade, fui procurá-la.


Foi quando encontrei um corpo, todo jogado. Já comecei a chorar, achando que ela tinha morrido.


Já estava até velando a pobre da lagosta, quando o Diego chegou e disse:


— Uai, mas não é ela ali? Diego sempre acaba com meus velórios imaginários...


E foi assim que descobrimos que lagostas filtradoras fazem ecdise.


Ecdise, para quem não sabe, é o processo de troca de exoesqueleto que permite que esses animais cresçam. Ficamos felizes, porque isso significava que Edileuza estava gostando da casa nova, se sentiu segura, largou o esqueletinho lá e a vida seguiu.


Quando a gente não vive o processo, crescer parece fácil, né?


Nesses últimos dez dias, Dona Edileuza entrou em ecdise de novo.


Tem sinais que indicam quando elas estão nesse processo: ficam mais quietas — na verdade, parecem travadas — comem menos, passam os dias deitadas, ficam pálidas, ou demonstram vida quando algo externo as obriga a reagir.


Parece até a gente quando termina um relacionamento ou é demitido.


Acompanhar isso, sendo um ser humano que racionaliza, sente e é ansioso, é desesperador. Quantas vezes tive que cutucar Edileuza (eu sei que tô no erro) só para garantir que ela não tinha morrido?


E todas as vezes, ela me provava viva.


Diego teve que me conter esses dias (a intervenção do pai na neurose da mãe é sempre divina):


— Deixa ela, amor, é parte da natureza dela. Ela sabe o que fazer.


E ele tá certo. Ela sabe o que fazer. Ela não tem dúvidas, afinal, é uma lagosta irracional, guiada pelo instinto e pelo aprendizado de milhares de lagostas antes dela.


Ela sabe que não vai morrer, sabe o processo que precisa seguir, e se não sabe, faz mesmo assim. Quem não sabe sou eu, que fico no “e se”: e se morrer? e se não conseguir? e se der errado?


Ver Dona Edileuza crescendo dentro da própria pele (perdão, biólogos, pela licença poética) é desesperador para alguém tão racional quanto eu (risos).


Mas, no meio desse desconforto todo que essa lagosta me proporciona, me vi pensando: crescer às vezes parece um pouco morrer mesmo.


Esse mês inteiro passei assustada ou me peguei chorando com decisões difíceis que preciso tomar; não choro ruim, choro de “aí, que dor sair da zona de conforto”. Se é que já estive nela um dia... Eu e Dona Edileuza, as duas em posição fetal, chorando o processo de crescer dentro da própria pele.


A vida é assim.

Pelo menos para quem não cresceu em berço de ouro.

A gente não vai para um lugar espaçoso e confortável para crescer.

A gente cresce até não caber mais dentro do próprio corpo, da própria cabeça, da casa, do trabalho, do relacionamento.


E aí, rasga.

Rasga chorando.

Nasce de novo.

Como um parto de si mesmo.

E aí a gente renasce… nu, frágil, vulnerável, sem saber muito bem como lidar com o corpo novo.


E, como uma lagosta filtradora, se protege como pode, endurecendo a casca enquanto carrega toda a experiência de ser o que é.


Dona Edy (pros íntimos) me ensinou que o processo é difícil, mas necessário.


Dói crescer.

Eita, como dói.


Mas a outra opção é ficar preso num corpo que já não te cabe.

E, quando isso acontece, o corpo vira prisão.


Então, às vezes, a única saída é rachar as paredes, arrebentar com os muros.

É encarar a dor, o medo, a paralisia do desconhecido que vem antes do novo.

É largar o que já não serve, deixar para trás o que um dia foi abrigo, mas agora sufoca.


É rasgar a pele antiga, por mais que doa, por mais que assuste, e caminhar, ainda frágil, para aquilo que vem depois.


Acho que, no fundo, somos como essas pequenas lagostas.

A gente sabe o que precisa ser feito. E aí sofre. Sofre por fazer. Ou sofre por não fazer.


Não sei bem como terminar esse texto sobre lagostas e humanos ansiosos.

Só queria dizer que, seja qual for o processo que você está passando, ou que precisa passar, vai dar certo.


Não tô dizendo que vai ser fácil, mas você vai conseguir.

Porque assim como a dona Edileuza, você também é uma lagostinha forte.


Até a próxima ecdise.

 
 
 

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